Com ausência poética


Espremo, torço, enrolo e amasso.
Esfrego, embrulho, mordo e nada.
Só vejo pedra, fumaça, luz
e três pardais cantando.

Seus gritos anunciam:
vai sofrer o outono todo.
Sem meias nos pés, sem abraço e
sem conchinha.

Quisera Deus ser um pardal.
Inclino meus olhos pro céu,
resmungo meia dúzias de ovos pobres
e ensaio um drama gótico.

Tudo fake.
Os ovos quebram, sapateio na poeira,
caio sobre as pedras, a luz ofusca os meus olhos
e nada acontece.

O amor pede passagem e
me atropela.
Resvala sobre o húmus do meu corpo e vai.
Pega o avião e vai embora.

Pior que está não fica.
Prostrado aos seus pés fictícios,
esboço um reencontro e nada.
É. Hoje a poesia não vem.

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